Mrs. America | Crítica (2020)

Baseada em fatos reais, Mrs. America retrata os movimentos políticos por trás do E.R.A (Equal Rights Amendment, Emenda da Igualdade de Direitos, em português) e do anti-E.R.A na década de 1970, com foco na personagem de Cate Blanchett, Phylis Schlafly, que foi contra a emenda constitucional que garante igualdade de direitos para mulheres e homens. A série também conta com nomes como Gloria Steinem, ativista e escritora feminista, interpretada brilhantemente por Rose Byrne, Shirley Chisholm (Uzo Aduba), primeira mulher negra eleita no Congresso dos EUA, e ainda tem no elenco outros nomes como Sarah Paulson, interpretando Alice Macray na luta anti-ERA e Elizabeth Banks, como a congressista Jill Ruckelshaus.

Acompanhamos várias personagens, principalmente a favor da E.R.A, por diversos anos da década de 1970, porém em alguns momentos a série não dá conta de tantas personagens interessantes e não dá a devida atenção que a personagem merecia, criando um arco interessante no episódio focado na personagem, para nunca mais voltar ao assunto. Apesar disso, a série não perde o interesse, pois o foco da história é a aprovação ou não da emenda constitucional, retratando o entrave das progressistas com as conservadoras ao longo dos anos, quase sempre dando saltos de um ano para o outro. Demora alguns episódios para conseguir acompanhar esse ritmo, e mesmo assim, as vezes demora para entender o que acontece.

A história não se preocupa em explicar a política norte-americana, mas não é algo necessário, claro que agregaria mais entendimento, mas saber que a E.R.A precisa que 38 estados ratifiquem em um período de oito anos, e para isso é necessário todo o apoio possível é o suficiente para entender as estratégias dos dois lados da luta. A série retrata essas ‘politicagens’ muito bem, tanto por meio da Phyllis e suas ideias para conseguir apoio para seu grupo, quanto por meio das progressistas lutando por um espaço real na política.

Enquanto a personagem de Cate Blanchet refuta o discurso das liberais argumentando que casamento não significa ser empregada do marido, e que poder ser bancada pelo mesmo é um privilégio, ela mesma muitas vezes é empregada do marido e dos filhos, e quando não o é, é apenas por conta de sua empregada negra e de sua cunhada, que não é casada e se culpa por isso. Além disso, Phyllis anseia por um cargo na política, e é justamente pelo discurso de que mulher tem que ficar em casa que ela não o consegue. Ela é cega e hipócrita e torna aqueles ao seu redor iguais, por meio de medo e discurso convincente.

Phyllis muda todo o discurso das feministas para fazer parecer algo absurdo, e na sua visão, errado. Inventa histórias para convencer as pessoas a serem contra a E.R.A e as feministas, muda fatos, não lê as propostas, distorce falas de outros e tudo isso se soma a sua boa locução midiática, e seu discurso confuso convence pessoas, que também não buscam informações na fonte. Infelizmente não é diferente de agora.

A direção de arte se sobressai na série, com a escolha dos figurinos, essencial para marcar o contraste entre as pró-E.R.A e as anti-E.R.A, a ambientização das casas, e também dos momentos em que o clima precisa ser ‘família tradicional americana cristã’, como a festa que Phyllis organiza no dia que a E.R.A deveria acabar, ganham muito principalmente pelo departamento de arte. O episódio 8, ‘’Houston’’, focado em Alice em uma convenção que reuniu membros pro e anti-ERA, mostra a habilidade da montagem e também da atriz, além de dar gosto de ver a personagem realmente conhecendo as feministas e desmascarando Phyllis e seu próprio movimento.

A série mostra que mesmo entre as feministas, há diferenças de opiniões e de estratégias. Enquanto Bella Abzug (Margo Martindale) acredita que deve ir aos poucos, pegando o que é possível, Gloria é uma das que é contra essa estratégia, não acredita em conquistar pouco a pouco. Essas diferenças são essenciais para que atrase a tomada de decisões frente ao grupo de Phyllis. Phyllis toma as decisões sozinha, as feministas chegam a um acordo. Independentemente do que é o melhor, a série consegue propor reflexões essenciais para os dias de hoje, que ainda há diferenças estratégicas e conceituais entre grupos que buscam seus direitos.

A história consegue te cativar, você torce para que a personagem de Cate Blanchett quebre a cara, que suas amigas e cunhada se tornem pro-ERA, ao mesmo tempo que gosta de acompanhar sua trajetória. Infelizmente, Phyllis Schlafly conseguiu que a E.R.A atrasasse 50 anos para ser ratificada em 38 estados, e foi uma das principais barreiras contra as lutas por direitos, sendo que até hoje ainda lutamos contra racistas, machistas, homofóbicos e não conquistamos tudo o que queríamos 50 anos atrás. A luta retratada na série não é diferente da que existe hoje contra o conservadorismo, fake news e extrema direita.

Nota do Crítico: 4,0 = ótimo

O critério de notas é estabelecido da seguinte forma: 

0,0 = péssimo

1,0 = ruim

2,0 = regular 

3,0 = bom

4,0 = ótimo

5,0 = excelente

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