Lovecraft Country 1ª Temporada | Crítica

Lovecraft Country é uma daquelas séries que todos deveriam ver, independente do gosto. Adaptação de livro homônimo de Matt Ruff, que por sua vez se inspirou nas obras de H.P. Lovecraft, mestre do terror, a nova produção da HBO oferece um pouco de tudo sem nunca perder a excelência.

A showrunner Misha Green transita bem entre diversos gêneros, sempre comentando a sociedade, com foco no racismo intrínseco, sem perder o que a série promete, que é a aura lovecraftiana e o horror. Quem leu algum livro de Lovecraft sabe que o autor teria um surto se visse histórias tão características suas sendo protagonizadas por negros. E é delicioso de ver, não só pelas críticas que a criadora faz, como é ótimo poder ver algo lovecraftiano tão bem executado em tela.

O roteiro segue o padrão de episódios com suas própria tramas que vão se juntando aos poucos. A princípio a trama de Letitia (Jurnee Smollet) comprando a casa, por exemplo, poderia ser só mais um ‘episódio da semana’, contudo os acontecimentos por trás da história são essenciais para o futuro.

O elenco complementa o roteiro, e vice-versa. Todos os personagens ganham um brilho a mais, o roteiro e os atores demonstram uma compreensão profunda dos personagens. Apesar de Jonathan Majors (Atticus), Jurnee Smollet (Letitia) e Abbey Lee Kershaw (Christina) estarem muito bem, Michael K. Williams (Montrose) e Aunjanue Ellis (Hippolyta) se destacam. A cena de Montrose na danceteria é de uma beleza e tristeza incríveis.

De arco em arco, é possível perceber diversos contos e elementos típicos de Lovecraft, e também perceber que a série bebe de diversas fontes de terror, sejam elas cinematográficas, literárias ou folclóricas. Apesar disso, o terror poderia ser mais elaborado. Com exceção do primeiro episódio e um episódio voltado para a Dee (Jada Harris), foram poucos os momentos de medo. Para uma obra inspirada em Lovecraft, uma dose de medo a mais faria muito bem.

Algo que Misha Green e outros roteiristas e diretores souberam fazer muito bem foi colocar a dúvida de quem são realmente os monstros, mostrado de maneira quase didática no episódio voltado para Ji-ha. A história propõe diversas vezes que, por mais macabra que seja a magia, o real problema é quem a utiliza. Restrita a poucos homens brancos e ricos (uma bela alusão ao próprio Lovecraft) com poder por séculos, mulheres ou negros nunca tiveram permissão para usa-la. Aqueles que a usam impõem suas vontades e suas ambições aos outros por meio deste poder, ao invés de usá-lo para outros fins.

Magia, poder, dinheiro… tira-se a magia, temos o nosso mundo. O episódio em que mostra o Massacre de Tulsa expõe bem isso. Em outras palavras, não foi preciso mágica para que aqueles homens colocassem fogo nas casas e matassem ao seu prazer, ou seja, fossem monstros. A magia que Whitford, Braithwhite ou o Capitão Lancaster realizavam era má, porém eles seriam maus com ou sem magia.

Por fim, Lovecraft Country tem um final sóbrio e amargo, coerente não só com si, mas também com os contos de Lovecraft. Em suma, é uma bela, se não uma das maiores, resistências ao racismo sistêmico, ao mesmo tempo em que não perde o entretenimento. Facilmente a série do ano, Lovecraft Country também é uma das melhores dos últimos tempos.


Nota do Crítico: 5,0 = excelente.

O critério de notas é estabelecido da seguinte forma: 

0,0 = péssimo

1,0 = ruim

2,0 = regular 

3,0 = bom

4,0 = ótimo

5,0 = excelente

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