Nada Ortodoxa | Crítica

Com ritmo próprio a produção da Netflix, adaptada de livro homônimo, conta verdades que não queremos e precisamos ver. Ou às vezes não temos a possibilidade de ver. Tanto se fala sobre feminismo, sobre liberdades, direito de ir e vir, direito à informação, não só para mulheres, mas para todos, e pouco se fala sobre as pequenas comunidades que bloqueiam o acesso à esses direitos. Há comunidades que o fazem somente por meio da religião, outras usando também medo, ódio e individualismo como ferramentas para alienar os membros.

Nada ortodoxa mostra uma comunidade judaica em Nova Iorque extremamente fechada e conservadora nos costumes. Mulheres são consideradas sujas enquanto menstruam, devem prover filhos e boa família aos maridos, cuidar da casa e só. Não é novidade, infelizmente. Porém, os membros desta comunidade não tem acesso à internet, ficando chocados ao ver um simples smartphone. É interessante o jogo que o roteiro faz com o espectador. Enquanto não somos apresentados por Etsy (Shira Haas) à Berlim de 2019, o roteiro não deixa indícios de que ano está, dando a entender que aqueles personagens e história estão nos anos 90. É chocante quando o espectador percebe o que acontece ali.

Misturando atualidade com flashbacks, o roteiro faz com que o espectador entenda a confusão de sentimentos que Etsy está sentindo. Ser criada por anos acreditando em algo como certo, para então ver que as coisas não são tão preto no branco quanto sua comunidade a fez aprender. A atriz Shira Haas demonstra por meio de olhares, voz e até mesmo com a boca trêmula a mente de Etsy. Justamente por conta de sua atuação tão bem alinhada com a personagem, contida e sutil, é que uma cena específica no último episódio é tão linda. Shira mais do que merece a indicação ao Globo de Ouro por melhor atriz.

A série não só é ousada ao contar essa história, envolvendo comunidades e pessoas que possam achar ofensiva por expô-las, mas também ousa na maneira de o fazer. Todos os personagens da comunidade tem algum desenvolvimento, seja o marido de Etsy ou a mãe. Em todos há uma reflexão e algo a se pensar. Além disso, apesar da série ter inserido Moishee, primo de Etsy, como um vilão e perseguidor da personagem, a série não faz maiores tentativas de ser televisiva. Conta o que tem para contar e pronto. Algo ótimo, pois não se perde e também não perde o espectador.

A minissérie da Netflix tem boas chances de ganhar o Globo de Ouro e será merecido.


Nota do crítico: 5,0 = excelente

O critério de notas é estabelecido da seguinte forma: 

0,0 = péssimo

1,0 = ruim

2,0 = regular 

3,0 = bom

4,0 = ótimo

5,0 = excelente

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